segunda-feira, 3 de maio de 2010

O Selo dos Olhos



Foi uma noite inquieta, e despertará, simplesmente, por despertar. Não havia alarme altissonante de um relógio velho a indicar a manha, não. Não havia um cão vadio a latir como um despertador da vizinhança. Não havia som algum, mas acordará. Tirava da pele o suor da noite, do pesadelo que já não se lembra mais, e enxugando os olhos, percebeu que não conseguia abri-los. De inicio não foi um susto, nem sabia o que era. Voltou a esfregar. Esfregava, esfregava, e nada. Então, algo no peito começava a brotar, desespero. Ruídos de uma boca fechada, angústia nos dedos. Moveu-se da cama e caiu no chão, e engatinhando, para onde nem bem sabia, percebeu que não era só os olhos que não abriam, mas também a boca.
Bateu com a cabeça na parede, sem perceber bem para onde tinha que andar. Mas andou até que batesse na parede adjacente, e logo percebeu que não tinha mais espaço para desesperar-se. Sentia-se como se suas pálpebras e boca estivessem coladas, costuradas talvez, e esse sentimento trouxe um pensamento sobrenatural, um apelo metafísico para aquilo que não sabia bem como lidar; uma maldição.
Sabia que devia ver, ao primeiro passo de acordar. Sabia que devia falar, ao primeiro passo do bocejar. Sabia que devia ver, no segundo passo ao levantar e sabia que devia falar, no segundo passo ao acordar. Mas não mais podia...
Tentou manter a calma e respirar profundamente. O ar conflitou-se nos pulmões e como não podia ser expedido pela boca, rasgou-se nas narinas, causando-lhe uma agonia que não podia ser agonizada. Assim, sufocou-se.
Sabia de suas responsabilidades, sabia que devia ver para falar e falar para alguém ver. Era escritor, era sua obrigação, e nesse momento agonizante, que a falta de uma respiração correta, implica numa possível morte, sentiu-se como uma criança que não se lembra como ver e como respirar.
E cada vez que o tempo comia os segundos, foi percebendo que o jeito era deixa-se morrer nesse conflito de ar. Sabia que se ele mesmo não conseguia abrir os olhos e a boca, ninguém faria por ele. E sabendo de sua total responsabilidade, deixou-se a morrer, no chão do quarto, onde após uma noite inquieta, despertará por despertar.

Me dê o recibo



- Eu só quero um recibo – Grito eu, enquanto um ser, descendente direto do gigante Golias, enfia minha cabeça na privada de um banheiro masculino e dá descarga.
- Um recibo?! O que você acha que nós somos? O INSS?! – Grita comigo, um baixinho que, provavelmente, é descendente direto da tribo de pigmeus da África Setentrional, enquanto pede ao gigante que segura minhas pernas – Afoga o cara!
- Não... Afogam-me de novo – Eu só quero o recibo pelo que paguei... – grito, entre um mergulho e outro na merda.
O produto que comprei, também está no banheiro, no canto perto da porta, junto com outros produtos, chorando com a ingenuidade de uma puta que acha um recibo sinônimo de ofensa pessoal.
- Chega, puxa o cara pra cá. Me conta, por que diabos você quer um recibo afinal de contas?
O Golias me senta no vaso, dá um tapa de mão aberta em meu rosto, e sinto todos os cinco dedos de sua mão deslocando os ossos do lugar. Tosso. Cuspo um pouquinho de sangue, ajeito a garganta e tento me explicar:
- Bem, eu só queria um comprovante de pagamento.
O baixinho, o chefão, olha para mim com um olhar semelhante ao que Robert De Niro faz em seus filmes de mafioso, e volta para o produto, no canto da porta, chorando.
- Ta vendo aquela linda moça chorando ali?! Pois bem, eu não sei muito bem o que você pensa de nós, mas aqui, não somos como qualquer outro prostíbulo que você fode e recebi um certificado por isso. Nós somos uma família, mané! E como família, se mexer com um, mexe com todos nós!
Ainda que estivemos no banheiro, sinto um vento frio soprando de algum lugar. As paredes ecoam uma tenebrosa trilha sonora e, então, todo mundo me volta um olhar sinistro de canibais homicidas, louco para ver sangue jorrar.
- Eu nunca foi a um prostíbulo... Falo mansinho, tentando não despertar uma reação violenta.
-... Oh, um virgem, nós temos aqui.... – debocha a versão em miniatura de Robert De Niro – Então, conte para nós, eu quero ouvir sua história, por que você quer um maldito recibo?
- Oh... (Plaft!) – sou interrompido pela mão gigante do Golias em meu rosto – Por que fez isso? Pergunto eu
(Plaft!) Outro tapa.
- Não sei, me deu vontade!
(Plaft!) Mais um tapa.
- Chega gigante! Deixa o rapaz falar, vamos ouvir!
Nesse momento da história eu não sabia se devia contar alguma coisa porque havia engolido um pedaço do meu dente, ou simplesmente, ficava de boca fechada temendo a mão do gigante no meu rosto de novo. Optei pelas duas coisas.
- Bem, eu quero um recibo...
(Plaft!)
- Gigante!!!!
- Desculpa chefe, é que a palavra provoca essa reação...
- ...Continua...
- (coff) (coff) Desde que minha ex namorada me largou para ficar trepando com um cego perneta, eu venho pensado seriamente em guarda todos os recibos das coisas que eu paguei, para o caso de um dia o outro precisar, você sabe, né? Somos uma sociedade capitalista.
- Você pagou pela sua namorada?! Pergunta-me curioso o chefão.
- Bem, ela não se vendeu, diretamente, explico: desde o dia em que nos conhecemos, eu vivi gastando dinheiro com ela; presentes, passeios, cinemas, pipocas, camisinhas, motéis e até a maldita faculdade dela.
- Entendo e você queria o recibo dessas coisas?
- Não de inicio. Eu queria apenas o dinheiro de volta.
- Mas isso é a coisa mais idiota que eu já ouvi em toda minha porra de vida! Você é o que, zé mane? Otário? Babaca? Idiota? Quem é que pede as coisas de volta?! Gigante, bate no cara por mim, de mão fechada, com gosto! Dá a ordem, o Robert De Niro junior.
Aqui vai uns dois ou três (Plaft!) e outros dois ou três (coff) (coff).
- Continua, quero ver o fim da história. Branda o pigmeu mandão.
- Eu sei que é idiota pedir as coisas de volta. Mas é o amor e eu só queria o recibo dele.
- Você quer um recibo do amor? E em que humanidade você acha que o amor tem recibo?
- Era para ter, afinal de contas é um produto.
- O amor é um produto?! Fala debochadamente a versão miniatura de Poderoso Chefão.
- Não é do tipo comum que se vende numa vitrine, claro, mas é sim um produto. Oh – tento explicar meu ponto de vista – Você a garota, qualquer que seja, do primeiro encontro ao tumulo que vão dividir junto, você gasta dinheiro! E se você gasta, gasta para agradá-la, o que, em outras palavras, significa que você está pagando pelo amor.
- Hum – Coça o queixo, o chefão – Bom argumento. E você queria o recibo disso?
-Sim. Se todos nós tivéssemos recibo para o amor, teríamos a garantia de que se acaso um produto não funcionasse, como o meu, você simplesmente poderia trocá-lo por outro melhor.
- Mas é ai que está a graça do amor, mane! Você não tem garantias.
- Eu sei, mas eu quero ter, por isso pedi o recibo.
(Plaft!) (coff)
- Você faz o que na vida? Pergunta-me o chefe, puxando sua cadeira para mais perto de mim.
- Escrevo poemas.
- Um poeta, né?!
- Sim.
- Então, deixa-me dizer algo, caro poeta.
Um pequeno e longo silêncio. Fico aguardando alguma coisa, olho ao redor, todo mundo quieto, olho para o chefe, ele está parando me encarando, e quando considero que isso é normal, o susto.
- VAI PARA A PORRA MULEQUE!!!!!!!!!!!!
(plaft) (coff)
- Você é um porre para a vida. Um poeta que fala de amor, mas nem sequer sabe o que é isso! Acha que a vida tem que ter garantias? Bem, seu otário, a vida tem que ter dor, sangue e algumas outras porradas, porque caso ainda não tenha entendido, é só através disso que se cresce, que se aprende, que se vive. Ninguém vive de garantias e se você acha que consegue, então você não merece viver, não merece nem sequer a lágrima daquela flor ali no canto, nem o tapa do gigante. Você merece o inteiro e perfeito nada.
Gelei. O tal vento frio que senti lá no início, veio aqui como uma tempestade de gelo me congelar. Fiquei sem atitude. Estava com medo do tapa do Golias, do esporro do pigmeu, da lágrima do produto.
- Cara, você me dá nojo – Disse o chefe. – Vamos gigante, esse cara não vale a pena, deixa ele quieto.
Todos saem, os produtos se auto-consolando, o chefão pigmeu e o carrasco Golias. Fica eu, na privada, cheirando a merda e petrificado.
- Ah, antes que eu me esqueça, vou te fazer seu recibo – Diz o chefe antes de sair. Ele volta, escreve num bloquinho de papel higiênico e assina para mim – Pronto, otário, lhe desejo uma grande e infeliz vida.
Enfim, ele sai. No pedaço de papel que ele me deu, as escritas: “Comprovo que Sr. Poeta não sei do que, fudeu sua vida pagando a quantia de sua alma. E espera garantias. Esse comprovante só pode ser trocado por um produto similar a auto fodilância, ou seja, um perfeito Pau no cú. Assinado: Grande baixinho”.
Bem, não era bem o tipo de recibo que eu queria, nem a garantia que esperava, mas pelo menos eu não saí perdendo, né?!

Noite Vadia



Ela senta na cama, deita, abre as pernas e diz: “bem, agora você só precisa gozar”. Não acho palavras para revidar, ela me quebrou, agora tinha que fude-la. Abaixo às calças, como-a, gozo, ponho a calça de volta, deixo a nota de 100 reais na escravinha do quarto, e digo: “não foi por isso que a paguei”, ela replica: “mas mesmo assim, comeu, né?”. Saio pela porta, caminho até o carro, Douglas pergunta: “E ai, conseguiu?”, só tenho uma resposta para ele: “Não, eu a comi.”.
Nós caímos noite à dentro. Postes, letreiros, faróis e o silêncio. A cidade é mais iluminada do que barulhenta, e as luzes só me lembram o bordel. É como se ainda não tivesse saído do quarto, estivesse lá, gozado, vendo a lâmpada do teto enquanto sinto o cheiro do cigarro misturar-se com o sexo. O carro para na Eliezer Texeira, é minha rua, meu bairro, minha casa. Abro a porta do carro e saio, Douglas diz algo que não entendo bem. Tenho certeza de que havia um começo para essa frase, mas meus ouvidos não prestaram atenção, concentraram-se no silêncio da cidade, e quando perceberam que não havia o que ouvir, escutaram o verso final dele: “... Pelo menos você a comeu, cara!”.
Vou supor que o inicio seja o mesmo inicio de sempre, algo tipo assim; “Cara, mulheres são vacas, todas são uma puta, basta você se apaixonar e tudo fica perdido. Veja você! Um cara super tranqüilo, sangue bom do cacete, se apaixonou e se fudeu, sabe o que você tem que fazer? Tem mais que sair metendo por ai, é isso que você tem que fazer, vingar carne com carne, se elas são vacas, devemos ser cachorros. Vamos cara, se anima.... PELO MENOS VOCÊ A COMEU, CARA!”.
Houve um tempo em que minha casa era meu lar. Hoje, não suporto mais ela. Ela cheira a trapos e a sôfregão, como um velho moribundo morrendo aos poucos, por memórias corrompidas e falta de comida. Eu tenho que sair daqui.
Fecho a porta, tranco o cadeado, caminho pela noite com meus pensamentos, treinando o pulmão para um ar fresco que, eu sei, é só uma ilusão. Meus pensamentos me traem, não posso ficar com eles, tem um bar adiante, nele encontrarei pensamentos que não serão meus.
Peço uma cerveja e peço que continue me trazendo. Uma garota, provavelmente prostituta, aproxima de mim: “... O que um gato como você ta bebendo sozinho aqui nesse bar?”. Sou fraco, respondo algo assim: “... Por enquanto, uma cerveja, mas é capaz de rolar algo mais essa noite”. “Ah é?! Estou incluída nesse algo mais?”. “Bem, depende”.
Cinco cervejas depois, uma nota de 20, e um motel qualquer no fim da rua. A gente trepa, eu pago a ela (sabia que era uma puta), gozo, e ela me beija. Peço para que não ascenda o cigarro, ela diz: “tudo bem, gatão!”, e vai embora. Decido passar a noite naquele quarto, quero morrer nessa coberta, há algo dentro de mim e eu não sei pôr para fora. Vai me roendo como um rato, como um verme, como um monstro de um pesadelo, vai se alimentado da raiva, do medo, da dor, de mim. Se alimenta de mim.
A noite é fria e eu queimo em um estado febril de sensações. Sensações provocadas por memórias burras que aparecem no lugar errado, no momento errado, e com as imagens erradas, e logo quando percebo, que dessas memórias algo cresce em minha garganta, vomito.
Como um perfeito bêbado vadio e ludibrie, deitado sobre a própria merda, na mais nefastas das imagens que o abismo poderia te contemplar. E ali, naquelas memórias, aquelas sensações, aquele vômito, começo a chorar.
Agora já não era mais um néscio bêbado lascivo, era uma criança, uma inocente criança, vítima de alguma injúria, chorando pelo mundo que não lhe foi dado, a luxuria de um ego que não pode se satisfazer.
Recomponho-me, tomo um banho, deixo a água lavar vômito e lágrimas, espero a cabeça parar de girar, cubro o vômito com o lençol da cama, deito no colchão, fecho os olhos e espero Morfeu fazer sua parte.
Há muito tempo atrás, vivia esperando esse Deus do sonho aparecer em minha janela, com aquela sacola de areia, queria perguntar a ele se eu podia escolher a coisa pela qual sonharia essa noite... Mas ele nunca veio.
O sono não vem. Culpa de Morfeu. Ou a culpa ainda é minha. Eu sei que essa coisa dentro de mim tem haver com remorso, tem haver com ela, o problema é arrancar dali, se eu soubesse como, essa noite nunca teria acontecido.
Eu nunca teria que me submeter aquela puta, e não precisaria ter pagado para conversar, não teria gozado, não teria me sentido um lixo, uma carne podre, um porco imundo.
Mas há tanto mais nessa coisa que me rói, quanto um remorso ou uma dor, e eu não sei pôr isso para fora. Só vômito comida, só choro lágrimas, só defeco merda, não sei pôr isso para fora.
E a noite passa. Já são quase de manhã e nada de sonhos para mim, ficarei acordado, na realidade de um quarto de motel barato, cheirando a merda, a vômito, a mim, e suportando outra noite vadia.

Um Poeta na Pré-História



"Quando elimina-se o impossível, o que resta, por mais improvável que pareça, tem de ser a verdade" ( Sherlock Holmes).


Então lá estava eu, de frente para o maior mamute pré-histórico que eu jamais vi em toda minha vida, cercado por uns bichos tão ou mais esquisitos que esse monstro na minha frente, se perguntando “o que diabos está acontecendo?”, quando, sem aviso nenhum, o mastodonte de quase 5 metros de altura (na verdade parece uns 15), pergunta; “Por acaso você sabe uma boa palavra para rimar com marfim? Tem que ser uma no sentido ‘Ah, meu marfim, o que fizera de....”. Sem reação, fiquei focado na minha expressão fácil congelada numa pasmacidade idiota de medo e nada. Sim, porque nada se passava pela minha cabeça, nem uma ordem neural de movimento, nem um comando central de pensamento, nada. E o mamute, então, disse; “bem, se não vai ajudar, por favor, queira se retirar do caminho”.
Mamute fala?! Ahm?! Mamute? Fala? Mamute? Fala? Onde diabos eu estava, afinal? Supôs, como qualquer bom poeta viajante, que estava em algum sonho pitoresco, fruto de varias seções noturnas de filmes como Era do Gelo e Jurassic Park, mas pela mais obvia das razões, abandonei essa teoria no momento em o mamute passou por mim, recitando um poema sem graça sobre as dores de seu marfim. O raciocínio foi lógico, não tinha tanta imaginação para sonhar com coisas assim, então, era claro que o negócio era real.
Sabendo que era real, a segunda coisa que fiz após ter congelado meu rosto numa imitação barata do quadro “O Grito” de Eduard Munch, foi basicamente gritar histericamente por umas duas horas mais ou menos. Na verdade, eu estava entre gritar histericamente ou continuar pasmado, o grito me pareceu uma atitude sabia e madura, diante das circunstâncias.
A selva, se é que posso chamar esse lugar disso, começou a fazer uns barulhos mais estranhos que meu grito, o que me obrigou a optar por uma atitude proporcionalmente inversa ao grito, o absoluto silêncio ressentido, com direito a braços apoiados no peito, pernas tremulas, e olhos esbugalhados. Na verdade, essa atitude, me parecia propicia para ser feita a noite, ali mesmo onde eu estava, mas o momento faz a circunstância, então, tremi como um franguinho preste a ser devorado por um tigre.
E o tigre apareceu. Com dentes maiores que a boca, a cor amarela suja, o tamanho desnatural e injusto para minha pessoa, e uma suposta fome que me fez ter pena das pobres vacas que MC’Donald’s e Bob’s matam para satisfazer minha fome, eu me sentia uma delas, não podia fugir, não sabia o que pensar, vendo a morte abrir a boca, e então, sem aviso, o susto é dado com a trava na língua; “fale depois de mim; um prato de trigo para um tigre, dois pratos de trigo para dois tigres, três pratos de trigo para três tigres, quatro pratos de trigo para quatro tigres...”. Respondi sabiamente; “ahhhhh” e ele me corrigiu, “não, não, ta errado é assim ó; um prato de trigo para um tigre, dois pratos...”.
Eu acho que poetas numa circunstância dessas não encontram outras coisas para fazer além de ficar pasmo e mijar nas calças, não que seja algo covarde ou estúpido de fazer, na verdade é até corajoso, mas acho meio decepcionante para um tigre pré-histórico que faz um jogo de trava na língua e tem a humildade de te dizer que você o respondeu errado.
“Ahhhhhhh”, foi o que respondi novamente. Meu cérebro simplesmente fugiu de mim, acho que o mamute o levou no poema do marfim, e o que sobrou foi um eco de “ahhhhh”.
“Affy, você não é muito inteligente, né? Tudo bem, só um conselho de amigo, se continuar falando nessa língua aí, ninguém aqui vai te entender rapá”, disse-me o tigre com um sotaque complicado de entender. Rapá, rapá, rapá, que dialogo é esse? Que merda tava acontecendo?
Por alguma razão meu cérebro voltou, naquele momento, e começou a pensar que talvez, numa explicação muito além da imaginação, eu fui sugado por um túnel do tempo e lançado num universo paralelo, estilo Alice no Pais das Maravilhas, sem as Maravilhas e com personagens da Era do Gelo. Ou, melhor, fui seqüestrado por alienígenas de Alfa de Centauro, que gostam de fazer experiências sórdidas com alucinógenos interplanetários em seres humanos. Tinha que ser uma explicação maluca.
Fiquei ali parado, enquanto o tigre seguia seu curso de Deus sabe pra onde resolvendo suas travas na língua. Não demorou nem mais do que alguns minutos para um bicho que parecia um urso gigante, quase 10 metros de altura, com uma boca maior do que um conversível importado rasgasse a floresta para me perguntar; “você viu um mamute com dores no marfim passar por aqui?”. Não sei se foi porque a essa altura nada mais me assustava do que a normalidade da esquisitice, mas respondi como se eu fosse um velho amigo da coisa gigante e assustadora; “Ah sim, claro, claro, foi por ali, um tigre também seguiu o caminho”. “Muito obrigado senhor, tenha um bom dia”.
Quando doidos deliram, eles imaginam isso? Fumei alguma erva despercebida por acaso? Não. Não... Não podia ser imaginação, não tenho tanta criatividade assim, se tivesse, Era do Gelo e Jurassic Park teriam tido outro rumo na história. Era de fato, ou melhor, tinha que ser de fato, uma explicação maluca.
Fora os alienígena e as suas experiências alucinógenas, que já provei que não seria capaz de me dar tanta criatividade assim, fiquei com as opções de viagem no tempo, erro na história, algum significado de Deus, ou uma bomba radioativa que transformou todos, menos eu, em animais pré-históricos.
Pensei comigo, as duas opções, viagem temporal e Deus é bastante obvio, então, deve ser mesmo uma bomba radioativa. De alguma forma eu dormi muito e quando acordei estava ouvindo poemas de mamute. Esse mamute, provavelmente é alguém que eu conheço e ainda está se acostumando aos marfins na boca. Então, segui o grande urso assustadoramente assustador, o tigre e o tal mamute, que foram para a mesma direção.
Deve ser efeito “Planeta dos Macacos”, ao fim da jornada, vou acabar descobrindo o Cristo Redentor destruído numa praia e gritarei “Malditos, o que vocês fizeram?!”.
Sigo bem pela selva esquisita, to mais seguro de mim agora, tudo tem uma explicação, improvável, mas mesmo assim, uma explicação. Encontro moscas simpáticas pelo caminho, que pedem de forma humilde e singela nossa permissão para ceder cinco por cento de nosso sangue, e mais a frente algumas formigas de 2 metros e uns outros bichos mais estranhos. Quando, enfim, encontrei o mamute recitando poesias em volta numa fogueira que parecia um incêndio tropical, tive a maior das surpresas até agora, um recital de poesias pré-histórico.
Nada de Cristo Redentor, nada de macacos metaforicamente associados a nossa civil sociedade capitalista, nada de bomba atômica. “Puta merda!” fiquei nervoso. Não tinha uma explicação, não havia, e como não dava para lutar com isso, fiz o que um bom poeta pré-histórico poderia fazer, sentei-me ao incêndio tropical (numa distancia segura, é claro), e fiquei ouvindo os bichos recitarem trovas e sonetos.
Acho que Holmes, Sherlock Holmes, autor da citação lá de cima, deduziria que se nem a mais improvável das circunstâncias for a verdade, então, meu filho, abandone todos os seus conceitos, nem tudo na vida tem uma explicação.

Um Homem Diferente



“Eu estou tão cansado de mim que amanhã eu prometo, vou mudar de eu”
(Alonso Costalonga – Diário dos dias que eu passei sem mim)

Todo dia ele acordava diferente do ontem. Hoje, por exemplo, segunda-feira, acordou às 6h34min, amanhã, terça, será as 6h35min, e não importa se é um minuto a mais, ou a menos, o que importa é que todo dia ele acorda diferente do anterior. E se acaso não são os minutos, a diferença de todo dia, é o jeito de levantar; um dia com pé esquerdo, outro com o direito, ou, um dia uma espreguiçada contorcionista para o lado direito e, no outro dia, uma preguiça espichada para a esquerda. Essa era a sua vida, um detalhe diferente por dia.
E precisamente hoje, segunda-feira, o tempo o diferenciou um minuto em relação ao dia anterior. E essa precisa mudança, imperceptível de um ponto de vista cético, é justamente a alteração que ele tanto precisa. Tomou o café, também de forma diferente, do anterior, ao invés do copo do meio, o último copo da esquerda, ao invés de passar a manteiga na parte inferior do pão, hoje, foi na parte superior. Mastigou, também de forma diferente, oscilando entre os dentes caninos e os incisos, amanhã, prometerá, será os pré-molares e os molares. Foi tomar banho, ao invés da toalha vermelha de domingo, a laranja esquisita, e no fim, viu que seu tempo de um minuto de diferença, lhe deu um acréscimo de uma hora de antecedência para chegar ao trabalho. Então, sorriu, também de forma diferente.
No tempo vago entre uma lotação e outra, buscou uma palavra para pensar; ontem, havia sido indiviso, hoje, encontrou a univocidade, qualidade de quem é unívoco, ou seja, que não permite enganos, homogêneo, uníssono, único, raro, certo. Estava feliz, um pouco menos feliz do que um dia já foi, o que lhe deixou mais feliz do que quando percebeu que estava feliz em cumprir seus objetivos.
Na verdade, essa coisa de ser diferente é bem mais que um objetivo do que qualquer outra coisa; é um desejo. E desejos tem raízes cravadas no coração, em seu caso, na eterna sensação de sentir-se diferente do dia anterior. Por exemplo, certa vez havia ficado oito anos sem cortar o cabelo, acumulado grandes centímetros de negritude capilar, e num dia qualquer, sem aviso algum, o cortou. Quando perguntado o motivo, respondeu; “Eu preciso me sentir novo cada dia”. Novo, essa foi a primeira palavra que buscou num tempo vago a muito tempo atrás, bem antes de perceber que esse vício emotivo, se tornou bem mais que um mero objetivo de vida.
O desejo de sentir-se novo diariamente, é equivalido a noção receosa de que, na verdade, ele igual, e igualdade, não faz bem a saúde.
Chegou no trabalho, foi pelo elevador, amanhã, calcula, vai ser pela escada. Senta em sua mesa, liga o computador, diz “oi”, ao invés do “olá” da semana passada para Alice, sua colega de sala. Digita o mesmo arquivo novamente, diferenciando a posição em que seus dedos regem as teclas do computador.
E lá pela cinco da tarde, quando o sol encontra uma latitude favorável no meio do horizonte para queimar as pestanas de quem se atreve a bisbilhotá-lo, ele vê o relógio de pulso, ao invés do escritório, da semana passada, percebe o ganho no tempo, a velocidade que completará todas suas tarefas, e decide voltar pra casa, mais cedo que semana passada.
De volta a casa, passando por um caminho diferente do que havia feito na sexta-feira, ele limpa o lar, um cômodo diferente por dia. Faz a janta, mesmo arroz, mesmo feijão, tempos diferentes de cozinhar. Assiste a televisão, um canal diferente por dia, e no fim do dia, quando já é a lua que manda no horizonte, ele fecha suas pestanas, o esquerdo primeiro que o direito, e promete; “amanhã vai ser o direito, primeiro”. E encerra o dia com uma noite diferente da anterior, pois assim ele era, um homem diferente, uma vida nova por dia, um dia diferente por noite.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O Ano de Minha Morte



Eu não sou muito bom com finais. Geralmente, os meus contos terminam sempre de forma abrupta, com anticlímax e sem sentido nenhum. Com medo de que talvez isso atrapalhe o entendimento dessa história, já aviso de antemão que o final dela se dá com a minha morte. É ali que ela acaba. Agora o começo, contudo, bem, pode-se dizer que começa quando eu descubro o dia, a hora, e o ano da minha morte.
Tudo começa no primeiro dia do ano de 2009, 1º de Janeiro. Não há como se esquecer desse dia, acordei de um sonho erótico com Jéssica Alba e uma espaçonave de ficção cientifica. Estávamos fazendo amor em gravidade zero, quando, sem mais, nem menos, ela olha para meus olhos e diz; “você vai morrer no dia 31/12/2009, às 11h59min”. Simplesmente assim. Quem é que não acorda depois disso?
Pois bem, acordei, eram 5 da matina, o sol ainda nem sequer nascerá. Caminho pela cidade, passo o tempo, penso no sonho e decido ignorar. Alguns passos rumo ao nada, me levaram, naquela manhã, a um outdoor no meio da cidade com a frase; “se você sabe que vai morrer, o que o impede de ser feliz?!”.
Tudo bem, eu não sou cara supersticioso, sou até, bastante cético para esse tipo de coisa. Mas eu estava me sentido incomodado. Imaginei, porém, que tudo isso fosse alguma coisa pós-ressaca de virada de ano. Então, pelos próximos meses, ignorei por completo isso. Até que...
“Você vai morrer no dia 31/12/2009, às 11h59min”, foi o que me disse um homem que eu nunca vi em toda minha vida. Não sei da onde surgiu, quem ele era, se era Deus, era o Diabo, era um homem do futuro, um alienígena, só sei que ele usou as mesmas palavras que Jéssica Alba, me disse, meses antes. Nessa altura, mandei tudo se fuder, era de verdade, eu iria morrer.
Bem, agora que eu sabia que ia morrer de todo jeito, me restava apenas saber o que fazer com minha vida até lá. Bom, eu já vi filmes demais com o mesmo enredo; homem sabe que vai morrer e muda a vida. Oras, todos eles tinham algo em seu favor; dinheiro. Sempre era assim, eles sabiam da morte, entravam num carro, cruzavam os Estados Unidos, e morriam na felicidade de quem curtiu uma boa aventura. Eu, por outro lado, sou pobre. Não tenho carro, não tenho emprego, não tenho dinheiro. Como diabos vou cruzar o Brasil? Nem a pé, se eu quisesse. Então, fui forçado, a pensar em outra solução.
O certo é aproveitar a vida, né? Seja como for. Bem, eu tinha esse problema, agora, meus amigos que deveriam me apoiar, na verdade, riem de mim, por achar que sou mentiroso. Nenhum topa nenhuma viagem. Minha família, porém, é outro problema, eu confessar que vou morrer é quase sinônimo da frase “mãe, preciso de dinheiro”. Por isso, evito falar com eles. Fora a família, deveria haver uma namorada na história, mas eu não a tenho. E não tenho como arrumar uma a tempo para fazer um filho e gravar um vídeo ensinando-o a viver. Logo, o pequeno problema, tornou-se angustiante.
A verdade é que eu nunca levei minha vida com um ultimato, tenho vinte e três anos, e até agora, minha maior preocupação, era comprar um carro para transar com mais garotas. O que mais eu pensaria? Sobre o que mais a vida me valia? Como é que a gente se prepara para a morte, se nem sequer estamos preparados para a vida? Por isso, eu não saberia como aproveitar minha vida perante a morte, porque não estava preparado para viver.
Comecei, então, uma maratona de livros. Li quase todos que falavam sobre a morte, vi quase todos os filmes que falam sobre o assunto, quadrinho, musica, arte robusta, papo de bar, etc... Minhas pesquisas consumiram-me 5 meses de vida. Só tinha mais cinco para começar a aproveitar.
Tive uma ideia. De todo jeito, precisava de dinheiro, e só tinha uma maneira de conseguir isso a tempo; roubando. Havia um banco na cidade, sem guardas, todo dia dinheiro era depositado, oras, era só fingir que eu tinha uma arma embaixo da camisa, e assaltar alguém na hora do saque. Seria simples, prático e fácil, contudo, não sou um ladrão e, logo, os dois meses de preparo psicológico para isso, me levou a um acovardamento moral, e eu não consegui fazer nada. Dois meses perdidos, cinco jogados foras, e outros dois à toa. Faltavam três meses.
Eu estava ficando desesperado. Eu tinha que fazer algo com minha vida antes que ela acabasse derrepente, sem graça, sem final, como um dos meus inúmeros contos. Acho que foi na medida em que meu desespero começou a se tornar visível em minha cara, que meus amigos e familiares perceberam que algo de estranho estava me acontecendo.
Inicialmente, pensaram que fossem as drogas. Oras, uma vez que se pensa sobre isso, você está num beco sem saída. Não adianta negar, porque mesmo se for verdade, eles vão pensar que você está negando por ser um usuário. Se você admite, mesmo que seja mentira, eles te internam de todo jeito. Então, sabendo disso, e precisamente, analisando meu fim, conclui que a melhor coisa no momento, era fugir com o que tinha mesmo, roupa e pé. Não queria passar os fins de meus dias, trancado numa clínica de reabilitação para dependentes químicos, admitindo culpa e falando de como a vida é injusta.
Fui para a estrada sem nada. Pensei; “se for para morrer... Até onde eu seria capaz de chegar”. E dois meses depois, cheguei ao centro oeste brasileiro. O coração do Brasil. Não foi a beleza do lugar, que de fato, me encantou, foi enfim, ter percebido que eu consegui fazer algo com minha vida. Ainda que eu não tivesse feito um filho, ou mesmo construído uma casa de sapê, ou plantado uma árvore, eu fiz algo com minha vida, eu partir. Tudo bem, eu não já não tinha rumo mesmo, mas saber que você é capaz de chegar em algum lugar, seja qual for, sem medo de morrer no caminho, é para mim, uma vitória. E foi nesse dia que eu morri.
Era dia 31 de dezembro de 2009, noite, virada do ano, eu nem percebi porque estava numa estrada deserta, sem ninguém no caminho. Fiquei sentado no asfalto, contemplando as estrelas e sentindo aquela sensação de vitória que cresce no peito quando se percebe o que fez com a vida. Vi uma luz em minha frente e a ultima coisa que me lembro era ter conferido o relógio, 23h59min.
Não foi uma morte poética, como imaginei que merecia, mas confesso que qualquer morte que viesse depois de ter andado por dois meses sem rumo, só para descobrir no meio de uma estrada qualquer, que sua vida se resumia apenas a uma força de vontade que excedia a existência, é, por si só, poética.
Agora que morri, tenho que me lembrar de agradecer a Jéssica Alba, quando morrer. Afinal, se ela não tivesse me avisado o dia, a hora, o ano da minha morte, eu continuaria indiferente com a vida e nem eu seria capaz de saber onde estaria agora.

Fim

O Poeta Estuprado



Segunda-Feira, 19 de Agosto, 2009
Consultório do Dr. Henrique Nóbrega
Cachoeiro do Itapemirim
10h00min.

- Augusto?
- Sim?
- Sou Doutor Henrique, por favor, entre em meu consultório.
- Ok.
- Então, qual é o problema?
- Bem, doutor, na verdade o problema não é comigo, é com meu amigo...
-... O que tem ele?
- Bem... Ele foi estuprado.
-... Deus do céu...
-.... Pelo menos é o que ele diz...
- ...Ué... Como assim?
- Bem... Ele diz que foi estuprado pela moral!
- Ahn? Como é que é? Pela moral?
- É... Segundo ele, era sábado de noite, ele estava em casa, sozinho, quando a tal da moral entrou sorrateira e penetrou sem seu consentimento em suas ideias...
- Peraê, me deixa ver se entendi... Seu amigo foi estuprado por uma moral?
- É o que ele diz...
- Moral? Moral?!
- Eu nem sei o que é isso afinal! Tem outro tipo de Moral, por acaso?
- Bem, há varias definições, né? Aristóteles trata da moral em três Éticas...
-... Vixi Maria Cheia de Graça... Eu não entendo nada disso não doutor, sou burro, eu vim aqui é mais para saber o que fazer com meu amigo...
- Ta desculpa... Sem delongas... Me conta direito essa história ai.
- Então, isso aconteceu já faz uns oito meses, mais ou menos. Eu estava em casa, comendo pipoca e vendo Big Brother, quando derrepente o telefone tocou... Era o poeta...
- ... Quem?
- ... O meu amigo...
- ... O nome dele é Poeta?
-... Bem, eu nunca soube seu nome verdadeiro, mas todo mundo o chama assim...
-... Ok... Prossiga...
-... Ele tava desesperado, chorando com soluços, e balbuciando coisas como por que a Moral havia feito isso, sabe? Ela não tinha esse direito, ninguém pode ficar ai, de bobeira, e derrepente, sem mais nem menos, penetrar nas ideias do outros! É violação de privacidade, ele dizia, imagine se eu quisesse entrar de cabeça na Moral? Ela ia gostar?
- ... Hum...
- E ele dizia mais, ficava culpando a conduta por não ter vigiado a Moral quando essa o quis violentar...
-... Entendo...
- Eu nem sabia que tinha acontecido, pedi ele para ter calma e me explicar o que tava acontecendo... Daí, então, ele falou que foi estuprado pela Moral...
-... E o que você fez?
-... O que todo bom amigo faria, eu acho... Comecei a procurar essa tal da Moral... Eu ia enchê-la de porrada até a morte!
-... E achou?
- ...Que nada... Eu nem sabia onde procurar...
- ... Então, o que aconteceu?
- Bem, fui lá ver ele... Cheguei em sua casa, ele tava no banheiro, sentado no chão, com roupa e tudo, e tomando banho! Tomando banho de roupa, doutor! Aquilo foi o bastante para mim. Liguei para polícia, contei o caso e sabe o que eles fizeram?
- Eles riram da nossa cara! Riram! Postaram nossa conversa telefônica no tal do Youtube e agora todo mundo fica rindo da nossa cara...
-... Hum... Entendo...
- ... Agora já fazem oito meses que tamo assim, o Poeta, Deus, o Poeta, está cada vez pior... Fica trancado por dias no quarto, quando sai, decidi jogar fora algum móvel da casa, esses dias, só para o senhor ter uma ideia, ele jogou o sofá do quinto andar...
- Nossa... Machucou alguém?
- Só um cachorro da vizinha que passava pelo local...
- Ainda bem que ninguém saiu ferido, né?
- Como assim, ninguém saiu ferido? E meu amigo, doutor? Ele ta na pior... Eu vi ele mastigando sola de sapato ontem...Sola de sapato! O que eu faço doutor?
- Bem, obviamente seu amigo sofre de um trauma... Um psíquico e emocional, para ser mais exato, ele deu a um ser inaminado vida e então permitiu que essa vida o violentasse em sua própria conduta de ética...
- Foi o que ele falou, onde é que tava a tal conduta?
- Sim... Sim... Mas a Moral não é um ser, não é uma pessoa...
- Ela é o que, então?
- Hum... Como vou explicar isso... A Moral é mais ou menos um conjunto de regras que o ser humano adota para seu convívio social...
- Ahm?! Boiei...
-... Bem é uma coisa muito técnica, para ser exato....
-... Mas tem cura?
- O que?
- A Moral, tem cura?
- A Moral tem cura? Boa pergunta... Não sei...
- E o que eu faço, então, doutor?
- Hum... Eu sugiro para ele que pare de ler livros de filosofia, e comece a ver comédias românticas...
- Comédias românticas? Ajuda?
- Nesse caso deve ajudar sim... Comece por Uma Linda Mulher, e depois passe por Quatro Casamentos e Um Funeral... Ta anotando?
- Sim... Sim...
-... Então, volte aqui semana que vem para me dizer se progredimos, ok?
- Ok, doutor! Obrigadão hein!
- Que nada...
- Só isso?
- Sim... Sim... Volte aqui semana que vem, hein? Não esqueça...
- Pode deixar doutor... Tchau...
- Ah... a propósito, antes de você ir, sabe o endereço que posso achar esse vídeo na internet?
- Vídeo?
- É... A conversa telefônica com a policia...
- Ahh doutor... Sei disso não...
- É só para estudar melhor o caso, tudo bem, deixa para próxima, boa sorte ai...
- Ta doutor... Tchau
- Próximo