segunda-feira, 3 de maio de 2010

O Selo dos Olhos



Foi uma noite inquieta, e despertará, simplesmente, por despertar. Não havia alarme altissonante de um relógio velho a indicar a manha, não. Não havia um cão vadio a latir como um despertador da vizinhança. Não havia som algum, mas acordará. Tirava da pele o suor da noite, do pesadelo que já não se lembra mais, e enxugando os olhos, percebeu que não conseguia abri-los. De inicio não foi um susto, nem sabia o que era. Voltou a esfregar. Esfregava, esfregava, e nada. Então, algo no peito começava a brotar, desespero. Ruídos de uma boca fechada, angústia nos dedos. Moveu-se da cama e caiu no chão, e engatinhando, para onde nem bem sabia, percebeu que não era só os olhos que não abriam, mas também a boca.
Bateu com a cabeça na parede, sem perceber bem para onde tinha que andar. Mas andou até que batesse na parede adjacente, e logo percebeu que não tinha mais espaço para desesperar-se. Sentia-se como se suas pálpebras e boca estivessem coladas, costuradas talvez, e esse sentimento trouxe um pensamento sobrenatural, um apelo metafísico para aquilo que não sabia bem como lidar; uma maldição.
Sabia que devia ver, ao primeiro passo de acordar. Sabia que devia falar, ao primeiro passo do bocejar. Sabia que devia ver, no segundo passo ao levantar e sabia que devia falar, no segundo passo ao acordar. Mas não mais podia...
Tentou manter a calma e respirar profundamente. O ar conflitou-se nos pulmões e como não podia ser expedido pela boca, rasgou-se nas narinas, causando-lhe uma agonia que não podia ser agonizada. Assim, sufocou-se.
Sabia de suas responsabilidades, sabia que devia ver para falar e falar para alguém ver. Era escritor, era sua obrigação, e nesse momento agonizante, que a falta de uma respiração correta, implica numa possível morte, sentiu-se como uma criança que não se lembra como ver e como respirar.
E cada vez que o tempo comia os segundos, foi percebendo que o jeito era deixa-se morrer nesse conflito de ar. Sabia que se ele mesmo não conseguia abrir os olhos e a boca, ninguém faria por ele. E sabendo de sua total responsabilidade, deixou-se a morrer, no chão do quarto, onde após uma noite inquieta, despertará por despertar.

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